Quando o menininho chega para a mamãe e mostra seu desenho, ela logo diz para valorizá-lo: “é lindo!!”. O garotinho olha para ela sem entender a princípio o que aquilo significa, pois só queria mostrar o que estava pensando, o que havia percebido, o que sentia, mas gosta daquela expressão carinhosa e feliz. Até aí tudo bem!
Num outro dia ele desenha de novo e se esmera nos traços e corre para mostrar sua produção e logo ela novamente se alegra e exibe sua admiração. O garotinho já estranha menos, da mesma forma gosta da reação e este é um sinal de que as coisas começam a se complicar para o menininho.
Com o passar do tempo esta cena se repete e o pequeno logo aprende que obtém admiração, atenção e afeto ao mostrar ao outro algo que ele gosta. Mais um pouco ele se enrola!
A mamãe para incentivar seu filhinho sempre faz a mesma cara de que gostou, mas pouco pergunta para o infante o que significa seu desenho e assim ele aprende mais um pouco a repetir o que de início era espontâneo. Tentará reproduzir o desenho que pensa ter agradado, pois também sente-se agradado. Pronto, o padrão começa a se instalar na cabecinha do menininho! Um padrão para agradar e sentir-se bem. Aqui ele começa a prestar mais atenção ao outro que a ele. O outro se torna mais importante e aos poucos sem que ninguém perceba, ele vai se distanciando de si. Pobre menino!
Mas esta história não para por aqui, tem um agravante, a mamãe que às vezes é um pouco intolerante com suas frustrações maternas, pois se preocupa em educar bem seu garotinho, fica muito brava quando ele não faz o que ela acha que seria bom ele fazer, então emburra, e aquela carinha carinhosa e agradável que seu filhinho estava acostumado desaparece e o que era gostoso fica ruim. E assim este pequenino fica um pouquinho confuso, não entende bem como estas coisas funcionam, mas como é espertinho vai aprender rapidinho que se fizer o que mamãe gosta, aquela carinha agradável voltará e ele sentirá mais segurança! Pronto! As portas do inferno se abriram para visitação!
O menino crescerá e cada vez mais aprimorará sua capacidade de agradar e esquecerá uma palavra que é uma das mais importantes do vocabulário de qualquer um: o “não”! E aí então as portas do inferno permanecerão abertas por tempo indeterminado para visitação! Nosso garotinho que começou bem entra numa enorme enrascada, sua capacidade de escolha fica muito comprometida e se nada fizer por si, será mais um a aumentar a fila dos desesperados, dos sem opinião, dos cover de alguém, dos patifes, omissos, infelizes. Um verdadeiro inferno!
Aquele lindo menininho com o tempo se transformará num homem pouco interessante, comum, só mais um homem a trocar sua capacidade de questionamento por um padrão. Será mais um a dizer o que o outro quer ouvir para obter dele aprovação e o que deseja, mais um a barganhar, enganar, fingir, mais um a não saber quem é, mais um a ser manipulado, mais um a manipular, mais um a não suportar uma crítica e mais um a morrer de medo de dizer “não”! “Não quero, não acredito, não concordo com você”! “Penso diferente, minha escolha é outra.” Cada vez que dizemos “não” estamos refletindo, escolhendo, modificando, dando fronteiras ao invasor, defendendo-se, responsabilizando-se pela própria vida e mais, contribuindo para a evolução do outro, que na tentativa de encontrar resposta diferente terá que refletir, escolher, transformar-se, aprender algo novo.
Este inferno que está aberto para quem quiser entrar pode ser diferente se o esforço pessoal for na direção do autoconhecimento e responsabilidade pela própria felicidade, destituindo o outro desta função.
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Ilustração: Teatro Imago Ensaio Vis Motrix