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DIREITOS AUTORAIS

Todos os textos aqui publicados são autoria de Ala Voloshyn.
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terça-feira, 6 de agosto de 2024

Uma Estrangeira em São Caetano do Sul

 

Nasci em 1956 em São Caetano do Sul, na casa de meus pais, de parto normal com assistência de uma parteira. Tudo muito diferente do que vemos hoje, mas era assim, pelo menos foi desta forma comigo.

Mãe e pai imigrantes ucranianos, chegados ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial. Nada muito simples, condição que exigia boa capacidade de adaptação a uma cultura diferente, em época de construção ou reconstrução de uma vida abalada pela violência da guerra, ainda na infância e parte da adolescência.

Fui criança arteira e alegre, pequena menina que aprendeu a falar na língua de seus pais, o Ucraniano. E assim iniciei minha vida de estrangeira. O Português aprendi com outras crianças brincando na rua e depois na escola.

E pensando hoje sobre isto, entendo o impacto da linguagem na cultura, é através das palavras que assimilamos os costumes, valores, comportamentos de um povo. E eu a que povo pertenço?  Brasileiro, ucraniano?

Tinha muita dificuldade em entender certas coisas como “namoro no portão”, o que significa, qual a diferença? Se passar do portão o que muda? E quando ouvia a mãe chamar seu filho e ele responder “senhora?” Que estranho, nunca foi assim com minha mãe, e, a primeira vez que lhe respondi “senhora” quando me chamou, levei uma bronca da qual nunca entendi a razão! E “mistura” ao se referir ao acompanhamento do arroz e feijão! Por que “mistura”? Minha cabeça se enchia de perguntas.

Eu observava tudo, ouvia com atenção o que as pessoas diziam, tentava entender como tudo funcionava e como deveria me comportar! Uma estrangeira era eu!

Em casa só conversávamos em Ucraniano, até que, na escola, minha professora sugeriu aos meus pais que parassem com o hábito, pois eu confundia as palavras. Afinal, o Português para mim era uma língua estrangeira!

E assim fui crescendo, entre tropeços, dúvidas e muita atenção a tudo o que acontecia à minha volta. Nossa casa era uma das poucas aqui no Bairro Santa Maria, onde brinquei muito com o barro da rua de terra, subi em árvore e, claro, caí também! Não faltaram aventuras no carrinho de rolimã, que eu e meu irmão pilotávamos em descida de terra desafiadora! Não sei como não nos arrebentamos, porque quedas não faltaram. Às vezes acho que tínhamos dois anjos da guarda com cada um, porque aventuras e arrojos eram constantes! Tempo bom, em que a vida era repleta de descobertas com erros e acertos sem fim.

Tínhamos um descampado com flores silvestres que eu adorava colher. Passava bom tempo olhando florzinha por florzinha, sentia seu perfume, colhia as mais bonitas e trazia para casa para transformar qualquer copo em um vasinho para enfeitar a mesa da cozinha. Fiquei sabendo um tempo depois que nossa Vila Santa Maria tinha sido uma pequena chácara com plantação de flores. Que incrível! Por isso, até hoje brotam flores que ninguém semeou! Talvez ainda sementes daquela época, penso eu. Que sorte a minha, nascer em solo onde havia muitas flores! Amo flores e árvores também, o que vemos em muitos lugares aqui! Gosto disso e algumas até continuo a plantar no quintal que ainda mantemos, porque ainda vivo nesta cidade e no mesmo quintal onde nasci. Isto é que é criar raízes!

Muitas transformações aconteceram, São Caetano do Sul se desenvolveu muito em pouco tempo. Hoje, é uma cidade que parece que não falta nada. Minha escola primária ainda está firme, “Professor Décio Machado Gaia”. Toda manhã lá ia eu para aula sozinha, subia um morro com trilha que dava pra escola. Ia feliz da vida, gostava da escola, onde toda manhã tomava uma caneca de chocolate quente, lembro até hoje do sabor! Do cheiro da madeira das carteiras, não se esquece, assim como da professora do primeiro ano, como era brava aquela moça! Eu não ousava contrariá-la, mas sobrevivi a ela, e a vida prosseguiu. Sempre me interessava por algo novo e diferente. Desfiles de 7 de setembro eram um evento e lá estava eu de bandeirante! Minha mãe costurou a roupa, que ficou muito bonita, e, mesmo que a chuva no final do evento nos obrigasse a procurar um abrigo, isso não era problema, pois o melhor já havia acontecido, o desfile pela escola! E, claro, depois lá íamos nós para o fotógrafo para as fotos de lembrança! Todo final de mês, nos arrumávamos para a ocasião, era obrigatório! O que foi bom, pois hoje posso rever um pouco da minha vida registrada nelas!

A menina, queria experimentar, viver cada momento, aprender, e, assim foram canto orfeônico, fanfarra, aulas de piano com minha professora Eunice. Acredita que fiz parte de uma das primeiras turmas de música da Fundação das Artes? Pois então, foi um erro, não pela Fundação, mas por eu ter deixado minha professora Eunice, pois, na verdade, não queria ser pianista, só queria tocar piano na casa da minha professora! E, quando quis interromper as aulas na Fundação das Artes, foi um terror em casa, minha mãe ficou uma fera comigo, mas não teve jeito, saí, e por anos, meu piano deixei fechado e, depois, vendi, o que foi um equivoco. Não se vende um piano! Mas agora é tarde e o trauma da reação da minha mãe foi decisivo para esse triste desfecho.

A menina estrangeira continua até hoje, pois ainda observo tudo, como as pessoas agem, como são os costumes, como se comportam, quais os valores sociais. Não os compreendo completamente, não concordo com alguns, sinto-me, às vezes, um “pato fora da lagoa” tentando me adaptar. Minha cultura de origem ficou no sangue, no coração e ainda fala alto dentro de mim. A sensibilidade para a arte, o canto, que adoro, o senso poético e a firmeza em relação aos valores éticos, a coragem e a resiliência, que não faltam no povo ucraniano. Nunca esqueci minha origem, meus ancestrais, sua luta pela sobrevivência num lugar tão gelado pelo inverno rigoroso, exigindo disciplina e força para enfrentá-lo. Nunca apagamos nosso DNA de terras distantes, de povo distinto!

Minhas avós eram de origem russa. Meu avô paterno tinha ascendência mongol e meu avô materno era um mistério, amante da cultura e literatura, que trago em meu coração, assim como minha avó. A baba Anna, linda, uma poetisa que cantava, bordava, plantava, contava histórias, uma pequena mulher, doce, brava e muito valente, características que eu herdei dela e as vivifico no meu trabalho e na minha vida!

Posso dizer que sou uma ucraniana brasileira sul-são-caetanense? Não sei, mas estou certa de que nossos ancestrais vivem dentro de nós e esperam que os honremos sendo seres humanos melhores a cada dia, por vontade e esforço. Acredito nisto, vivo isto!

Ala Voloshyn, dezembro de 2023

©Direitos reservados a Ala Voloshyn

Matéria publicada na Revista Raízes 67, Dezembro de 2023, Ano XXXV. Publicação da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, SP, Brasil. Jornalista responsável: Paula Fiorotti (edição e revisão)

 
















Com Paula Fiorotti

Raízes na Biblioteca Municipal,
com Ana Maria Guimarães Rocha

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